Médico alerta para ‘o risco de adoecer por medo de adoecer’

Em contexto de pandemia da Covid, verifica-se um afastamento do público das consultas médicas em geral e das consultas de rotina em especial. Quem o diz é o Dr. coordenador de Medicina Geral e Familiar do Hospital CUF Infante Santo, David Paiva, que alerta para 'o risco de adoecer por medo de adoecer'. Assim, o artigo de opinião que se segue é da autoria do profissional de saúde.


Nos últimos 6 meses e no contexto pandémico Covid assiste-se a uma subutilização dos serviço de saúde no seu conjunto e a um afastamento do público das consultas médicas em geral e das consultas de rotina em especial.

A obsessão pela Covid e o medo da Covid quase fez esquecer os muitos outros problemas de saúde que afligem a sociedade e que contudo persistem.

Vamos ter que conviver com a Covid seguramente durante 2 anos, talvez sem vacina ou tratamento específico, tal como os nossos avós conviveram com a gripe pneumónica em circunstâncias idênticas há 100 anos; e contudo num mundo menos global mas também com menos recursos, sobreviveram!

Usar máscara, lavar mãos, alguma distância social era e é a proteção universal para esta como para todas as doenças infecciosas e respiratórias semelhantes.

Vai ser assim e vamos ter que nos habituar, mas há mais em que pensar.

A prevenção, o diagnóstico precoce e o seguimento atempado das doenças agudas e crónicas são componentes fundamentais da intervenção em saúde e nessa matéria parece que o sistema está a ser mais ineficaz também por responsabilidade dos utentes que não vão ao médico com receio.

As estatísticas mostram que este ano a mortalidade por doença “não Covid“ aumentou e enquanto prestadores fica-nos a desagradável impressão de que muita gente se deixou morrer em casa ou recorreu tardiamente, e às vezes mesmo demasiado tarde, aos cuidados sanitários.

Durante a fase de confinamento deixaram de nos aparecer os doentes crónicos com hipertensão ou diabetes ou insuficiência cardíaca que vão agora lentamente reaparecendo em pior condição e mais descompensados e também foi evidente a redução no diagnóstico precoce de doenças oncológicas; sinais e sintomas que noutra ocasião trariam de imediato os doentes ao médico foram agora relevados e adiados e isso não pode acontecer.

Neste fim de Verão vai ser necessário regressar a uma possível normalidade e utilizar os serviços de saúde e as consultas médicas de forma preventiva para preparar um Inverno que não se adivinha fácil; são precisos exames de rotina, é preciso vacinar para a gripe e para a pneumonia, é preciso diagnosticar e tratar precocemente e há certamente muito a diagnosticar e tratar.

Há que frequentar, sem medos paralisantes, os hospitais, os centros de saúde e as consultas médicas. O sistema de saúde é seguro e há que utilizá-lo, há que desconfinar, há que viver!

Não podemos deixar-nos adoecer pelo receio de poder adoecer.


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